1 Controle Remoto

por Israel.França

Quando o final do filme chegou ao seu início, este parecia ser longo demais para ser verdade. Mas eu esperei enquanto o filme não terminava. Foram longos minutos ouvindo um dialeto estranho, lendo uma legenda incompreensível. As pessoas na sala pareciam vomitar a pipoca e o refrigerante dentro dos copos. Quando iam ao banheiro andavam de trás para frente e se divertiam com aquilo. Pareciam loucos querendo me assustar. O mais estranho de tudo era ver minha tia engolindo a fumaça do cigarro. Parecia gostar daquilo. Quando o filme começou alguém abaixou o volume e desligou a TV, retirou o DVD e saiu sorrindo também de trás para frente como se tivesse descoberto o mundo. O dia clareava e não era de madrugada. O sol voltava a brilhar naquela noite. A manhã não tardava a chegar. Eu continuava sentado no sofá enquanto observava todos felizes e sem pressa andando de costas.


Mas vi uma jovem senhora idosa aparentemente cansada numa cadeira de rodas empurrando seu filho que esbanjava saúde eterna. Percebi que o mundo não era tão estranho como eu pensava. Pude ver que não estava louco. A senhora parou numa livraria, colocou seu filho na cadeira de rodas e engatinhou até a loja. Eu não podia ficar parado. Corri até a livraria atrás do consolo de que pelo menos eles eram normais. A velha comprou um livro. Perguntei o título. "Canibal vegetariano que bebe o sangue das flores e come a carne do fogo", ela me respondeu. “Este livro é muito bom, meu jovem. Ele fala sobre as pessoas loucas”, completou. Eu perguntei por que as pessoas estavam caminhando de trás para frente semelhante a fitas sendo rebobinadas. "Porque o mundo é um controle remoto", ela respondeu. “Mas o que eu faço para que tudo volte ao normal?", perguntei. "Se conseguires remover a pilha de todos os relógios do mundo conseguirás o que tanto queres. Do contrário, o tempo voltará e você voltará para a barriga de sua mãe". Não tinha sentido retirar as pilhas dos relógios de todo mundo. Mesmo que eu conseguisse, como pararia os relógios movidos à corda? Eu precisava de um martelo. "Onde encontro um martelo, meu Deus?". "Use a cabeça, meu jovem", disse a velha enquanto o seu filho montava nela.

Comecei uma jornada alucinadora enquanto destruía todos os relógios com a própria cabeça. Fui preso pela manhã. Quando entrei na cela três horas depois já era de madrugada. Quando fui solto dezoito anos depois me sentia mais jovem fisicamente, mas continuava louco: as pessoas ainda faziam tudo de trás para frente.

Os policiais me colocaram dentro da viatura, me levaram para um beco escuro onde se encontrava um homem morto no chão, retiraram minhas algemas, colocaram uma arma no meu bolso, se afastaram e apontaram suas armas para mim. Depois começaram a gritar num dialeto estranho, colocaram suas armas nos coldres e por algum motivo entraram de costas na viatura, e sumiram de ré no horizonte. Aparentemente o homem não estava morto, se mexeu com dificuldades, depois o sangue que o envolvia foi chupado pelo próprio corpo. Quando o chão ficou totalmente limpo ele levantou-se, apontou uma faca para mim e parecia enfurecido. Fazia uns gestos com a mão, me pedia algo. Não podia compreendê-lo, pois eu ainda estava com a síndrome das coisas que andam de trás para frente. Coloquei a mão no bolso e retirei a arma que os policiais me deram e lembrei-me que aquela situação já havia acontecido. Resolvi não atirar. O homem tentou correr, mas os policiais surgiram de repente e o prenderam.
— Pare, senão nós atiramos!

Pude ouvir a primeira frase compreensível depois de tantos anos de loucura e ilógica. Eu parecia estar novamente curado.

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1 Respostas para "Controle Remoto"

  1. Caco Lessa 1 de junho de 2010 13:08
    Intrigante o conto Controle Remoto, Israel. Muito bom, fiquei com a pulga atrás da orelha...rs. Valeu.
    Passei por aqui por indicação da srta.Sumie com seu novo blog Fada dos Livros. E, gostei! Até.

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